cronista urbano 3.0

música, cinema, livros e o cotidiano.

Velhas Virgens e Arnaldo Baptista em documentários

Vou correr atrás desses documentários, para depois postar alguma coisa para vocês. Façam o mesmo, pois devem ser excepcionais.

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Falador ainda vai passar mal

Os homens começam a pensar e, nos debates, aliam-se e formam correntes de idéias que transformam o mundo. Essas transformações nem sempre são positivas, mas elas ocorrem. Então pessoas com pensamentos semelhantes se aglomeram e se estabelecem na nossa sociedade, com alianças que ultrapassaram o campo religioso e atacam numa espécie de “expansionismo das mentes”, por aí. É um nome bonito para falar de uma coisa simples: o poder de persuasão, e, em cima disso, da conquista de tudo e todos por meio de algumas idéias que, sinceramente, são furadas demais.

Esse expansionismo ideológico sempre foi a maior prática da Igreja Católica, que conquistou seu rebanho e ampliou sua rede de influências para amedrontar reis, presidentes e outros manda-chuvas. Séculos mais tarde, outra Igreja, a Universal, renovou esse modelo e graças à conquista de antigos membros católicos e outras pessoas desgarradas/despreparadas, recebe até hoje críticas mordazes dos perdedores. Assim, antes que você me acuse, prefiro observar as cagadas de um ou outro lado em vez de tomar partido – embora você ache que eu tomei.

É por isso que notícias como essa me deixam indignado, mas, ao mesmo tempo, desestimulam qualquer interesse de debater por horas ou redigir um extenso artigo. Mais uma vez, um grupo de homens que subverteu – e ainda subverte – muitos dos mandamentos divinos em benefício próprio e surge nos braços da Imprensa como “a Verdade Superior”. Quem são eles para mensurar a gravidade da conduta da mãe e da criança? E, pior, quem são eles para condenar as duas e manter um criminoso em seu grupo de fiéis? Será que Deus realmente está satisfeito com o que fazem justificando-se em Seu nome?

Ainda pago para ver Deus descendo muito puto, mandando um “pedala” em cada “féla falador” desses e explodindo esse estuprador como o Dr. Manhattan fez com o Rorschach no final do Watchmen. Sem Jesus, Buda ou qualquer outra personificação para disfarçar. Aí sim a coisa iria feder. Quanto ao aborto, isso é tema para um outro texto.

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Devendo na tela grande

Dessa vez, o Scorcese não se definiu entre o documentário ou o musical. No trailer e nos primeiros takes antes do show de Shine a Light começar, já se vão todos os atrativos dos bastidores que tanto atraem os fãs. Afinal, roqueiros sessentões são atrações ainda maiores nos camarins, fazendo o que sempre fizeram em todos esses anos e alimentando dezenas de suposições. Pena que o diretor não pensou nisso.

Por ser tão indefinido, Scorcese não consegue o mesmo feito do documentário anterior sobre Bob Dylan. Escorregou ao revelar toda a “piada” nos trailers para, pouco depois, transformar seu filme em costuras do show atual com entrevistas antigas. Mas e a interação dos Stones com a família, as preparações antes dos shows e tudo mais? É, fica para a próxima.

Depois de ver os gaúchos do Cachorro Grande na sexta-feira e estourar a garganta com gritaria e cerveja gelada (fotos e texto em breve, após sanar problemas técnicos), o sábado filme dos Stones foi fraco. Até porque, se fosse para assistir apenas ao show, era mais fácil e barato ficar em casa mesmo, só no DVD. Abre o olho, Scorcese!

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Real? Imaginário? Estamira.

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Marcos Prado tocou no lado sentimental de seu espectador. Trouxe às telas mais do que a fúria, a insanidade e as profecias de Estamira. Seu documentário mergulha nos discursos atrapalhados, nos “zunidos” e conexões misteriosas dessa mulher de 63 anos que passou por experiências tenebrosas em sua vida. Talvez por tanto amargor, tanto repúdio e tanto desamor que ela isolou-se da falsa sanidade do nosso mundo, regido pelo ‘Trocadilo esperto ao contrário’.

O filho a evita, com medo de seus acessos supostamente demoníacos. Uma das filhas reconhece a loucura da mãe e a apóia, evitando de todas as formas uma internação – o que seria ainda mais traumático. Já a filha menor demonstra um certo ressentimento por ter sido criada longe da mãe, mas ainda preserva a mesma afeição por aquela que lhe deu a vida. Sim, é inevitável suspeitar da solidez desse amor, principalmente durante os acessos de raiva de Estamira quando o assunto é Deus. Mas seu discurso místico, raivoso e ao mesmo tempo íntimo dos astros, balança quem se percebe como principal agressor de pessoas como ela, graças à cultura do descartável e não valorização da vida. Isso, leitor(a), sedimenta a analogia de que o verdadeiro lixo é aquele que está do outro lado da lagoa, iluminado pelos postes durante a noite.

A rede pública de saúde não apaga seus delírios. Os remédios não apagam sua repulsa diante das misérias humanas, dos montes de descaso acumulados na periferia, na borda do mundo onde Estamira sente-se à vontade e não pretende sair. Depois de tanto tempo vendo-o de longe, Estamira faz de tudo para isolar a concepção humana de Deus, feita para que os ‘espertos ao contrário’ justifiquem as pedras que tanto lhe jogaram ao longo de seus 63 anos. Sua mão no peito e olhos arregalados expõem o cometa dentro dela, fervilhando ao tomar consciência de seus tormentos, potencializados ao longo de prostituições, traições e estupros. Se há tantos erros, há Deus? Para ela, não.

Estamira começa singelo e termina profético. Na beira do mar, seu lado visível está calmo, sozinho. Pouco depois, ela e seus companheiros invisíveis se libertam, dando início às turbulentas ondas que ela orquestra. Mais do que sua intimidade com o invisível, Estamira conclui sua missão e nos coloca frente à frente com tudo aquilo que julgamos restos, dejetos e inutilidades. Entretanto, tudo aparentemente eliminado desembocará em locais como o Lixão do Gramacho, onde os descuidos da sociedade, de coisas à pessoas, serão revelados.

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Reine Sobre Mim

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Charlie Fineman (Adam Sandler) perdeu a esposa, duas filhas e até mesmo o animal de estimação no 11 de Setembro. Nisso, nada mais lhe interessava. Sobrou um apartamento repleto de lembranças que ele preferiu isolar, adotando uma vida que regressou à adolescência. Seu maior prazer e devoção, em vez do trabalho na Odontologia, tornou-se um Playstation. Amigos? Não, apenas a companhia de um suspeito advogado da família e da ranzinza síndica do prédio em que mora.

Do outro lado, Alan Johnson (Don Cheadle) é um dentista renomado, mas não lida bem com a balança entre a vida pessoal e o trabalho. Vive explorado pelos sócios de um consultório onde ele foi o maior colaborador, com direitos até à maior fatia do bolo, e não sabe compartilhar suas dificuldades. Até que um dia a represa estoura e Johnson encontra Fineman, o velho colega de quarto dos tempos de faculdade, numa casualidade pelas esquinas de Nova York.

Não parece, mas Alan tem um pouco mais de coragem do que Charlie na hora de enfrentar problemas. Sabendo disso, Johnson aproveita as lições de convivência com Fineman e tenta ajudar o amigo a desabafar. Pena que o advogado (aquele, lembra?) fica sabendo e deduz que há interesses excusos na amizade. Com isso, até os ex-sogros entram no embalo para interditar o “esquisito cheio da grana” e, enfim, a força dramática do longa se revela.

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[Fineman (Adam Sandler) e Johnson (Don Cheadle) curtindo um cineminha.]

Adam Sandler continua mostrando competência em histórias mais densas, como já fez em O Paizão e Espanglês. Seu personagem que abdicou de tudo o que lhe lembrava a vida adulta – e, consequentemente, a sua família – nos deixa com raiva, faz rir e, principalmente, chorar. Don Cheadle continua com seu olhar que fala, conduzindo muito bem o contido dentista Johnson. Mas a cena mais brilhante envolve o sermão que Johnson aplica em Fineman, levando-o às lágrimas e ao esperado desabafo de cinco dolorosos anos. E, leitor(a)… essa cena vai te balançar.

Outro ponto forte foi o bom-senso da distribuidora, que seguiu fielmente o sentido do título original e deu ainda mais força àquela canção do Bruce Springsteen. Quer saber qual é? Assista, emocione-se e descubra.

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As surpresas de Juno

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O diretor Jason Reitman aplicou bem o jeito indie de encarar a vida em Juno. Salpicou Cat Power, Sonic Youth e Bebel Gilberto no universo da adolescente sonhadora que só pensava em ser rockstar. Seu senso de humor também soube ser sério nessa história com personagens mais próximos da realidade, sobre os quais podemos pensar que suas reações poderiam ser as nossas diante de uma gravidez inesperada. Afinal, todos evitamos quando preciso, mas nunca sabemos quando uma surpresa pode nos pegar. Aliás, até imaginamos um pouquinho… Cheios de medo, pensando em matar os responsáveis que acabaram com a juventude, ou qualquer outra idéia maluca. Mas peraí, isso está dramático demais! Talvez por pensar assim que Reitman orquestrou seu mais novo longa-metragem de um jeito mais realista e, por isso, mais atraente do que muitos dramalhões por aí.

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Ellen Page (foto) é uma grata revelação, com falas que tornam-se ainda mais engraçadas quando pegamos o texto original em inglês. Tudo bem, a praticidade de sua personagem e também de seus pais pode assustar os mais moralistas. Entretanto, Juno seguiu uma opção que muitas mães cogitam, mas não têm coragem de executar. Seu “altruísmo”, por assim dizer, ajudou uma mulher com problemas de infertilidade e também seu próprio filho, que poderia não ter um futuro muito interessante ao lado de um pai mané como Bleeker. Sem falar na falta de vocação maternal da própria Juno, uma adolescente de 16 anos cujas expectativas giram em torno do estrelato musical, e nada além. Desse modo, as conclusões sobre os atos de Juno só se revelam depois de uma breve reflexão sobre como uma inconsequência, ou quem sabe um acidente, tomaria dimensões catastróficas mais tarde.

Juno é um filme delicado, que faz rir e também emociona. Consegue explorar o tema controverso sem ser piegas, com atuações realísticas que, ainda assim, seguram um pé na adolescência e outro na maturidade. Uma ‘dramédia’, como chamam por aí, com originalidade no roteiro e pérolas na trilha sonora prontas para lhe conquistar.

*

Nem percebemos como os anos passam rápido. Parece que foi ontem que falava sobre Os Infiltrados, Babel… e hoje, nesse fim de domingo melancólico e silencioso, o Oscar chegou. Alguém diminua a marcha desse trem, já!

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Computadores na Lenda

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Como já gostei muito de Constantine, o trabalho anterior do americano Francis Lawrence, esperava por mais um bom trabalho. O status de mega-estrela de Will Smith (foto) também conta pontos, graças ao seu carisma e excelente retrospecto. Com esses dois itens no bolso, enfrentei as habituais filas de estréia e encarei Eu Sou a Lenda.

Os longos intervalos de silêncio e escuridão usados por Lawrence assustam, preparando o espectador para os encontros com os humanos infectados pelo vírus que outrora foi a cura. A expectativa criada por essas tensões e pela solidão dilacerante de Neville só não é totalmente satisfeita pelo exagero digital na concepção dos “zumbiros”. Isso contrasta com a sensação de que Neville agia como qualquer um de nós agiria se encontrássemos a Terra nessas condições. Os tecidos, as atitudes e movimentos dos monstros em que os humanos se tornaram após a infecção não têm aquela aura de mistério como na versão setentista da mesma trama, em que havia uma comunicação telepática entre eles e as atitudes eram mais próximas do que ainda sobrou de humanidade nos doentes. E os cães infectados então? 

Já o roteiro mostra-se enxuto, indo direto ao ponto sem a necessidade de longas cenas explicativas sobre a devastação do planeta (num futuro tão próximo quanto o das teorias conspiratórias). Talvez um maior capricho nas cenas de ação, para evitar que os conflitos se resumissem à “caçadas Madrugada dos Mortos“. Só que a trama é bem amarrada, a tensão é bem arquitetada e as tomadas de Nova York em total abandono são sensacionais. Somando isso tudo ao talento de Will Smith, que sustenta 3/4 do longa praticamente sozinho, o excesso de recursos digitais fica com cara de extravagância contemporânea.

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Interrogações

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Quando gente jovem morre tão cedo, são poucos os veículos da mídia que se dispõem a uma reflexão sadia, sem sensacionalismo ou preconceitos. Tratam logo de buscar uma retrospectiva expressa, um resumão mal-acabado ou qualquer coisa que caiba nos tempos corridos da tevê ou dos standards nos jornalões. Só que, no caso triste da partida de Heath Ledger (foto), ainda com 28 anos, as dúvidas tomaram o lugar de tudo.

Começou-se com uma dúvida semelhante à levantada quando o Layne Stanley, vocal do Alice In Chains, foi encontrado morto há três ou cinco dias em seu apê. Logo, a polícia encontrou pílulas na gaveta da cômoda de Ledger, mas a Imprensa pouco investigou a possível depressão dele por conta da separação de Michelle Williams. Talvez uma dor o movesse aos encontros físicos com Lindsay Lohan, ou então às disputas sexuais envolvendo Kate Hudson. Coração partido, ou qualquer outra dor que envolva o nosso “mal do século” e pode nos levar a um redemoinho insano. Por enquanto, assim como os policiais e a própria família Ledger, ninguém consegue descobrir mais nada.

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O último trabalho - Agora, os estúdios Warner não sabem o que fazer para divulgar Batman – The Dark Knight, longa ainda inédito no país – e que traz Ledger levando o vilão Coringa a uma dimensão sem precedentes (foto). Têm receio de soarem como exploradores de uma curiosidade mórbida (e até certo ponto natural) do público, assim como foi com James Dean e Brandon Lee. Fica o lamento pela morte prematura de alguém que já tinha conquistado tanto e tinha toda uma vida pela frente.

Ledger levou consigo as razões que uns buscam pelo suicídio, outros pela overdose. Diante dessa mórbida discrição, que o deixem descansar em paz.

*

Retorno - Sim, estou de volta em doses esporádicas. Os trabalhos envolvendo correções e revisões de trabalhos universitários, aliados às tentativas de frilas jornalísticos e a Supervisão em um callcenter tomam quase todo o meu tempo hábil. Mas fiquem tranquilos, eu sei que devo espantar as moscas daqui.

Obrigado pelas visitas, amigos(as) leitores(as). Aos poucos, saldo minhas dívidas com vocês.

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O “de sempre” e a “novidade”

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Política - Se a Globo bota o Lula numa entrevista ao vivo, o SBT não fica atrás e também vai até o Itamaraty. Dentre os vários assuntos, a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) que o presidente tem certeza de que a oposição pensará em favor do País e irá mantê-la. Do lado petista, está provado que ninguém quer largar o osso. Mas é fácil brigar por um osso que é pago pelos outros, né?

Já o ex-governador Paulo Maluf desistiu das chamadas televisivas nas quais chamava para si a descoberta da mega-bacia petrolífera em Santos (SP). Aliás, não era tão descarado assim. O nome do santo era Paulipetro, um consórcio formado pela CESP (Cia. Energética do Estado de São Paulo) e o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) no final da década de 70 para explorar petróleo na bacia do Paraná, no interior do Estado. A iniciativa só deu prejuízos (que até hoje não foram sanados), mas Maluf andou dizendo que seu santo “antes difamado, agora põe o Brasil na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo)”.

A coincidência entre os dois parágrafos acima é que eles casam perfeitamente com a ilustração. Os jogos políticos continuam fervendo, enquanto o povo assiste passivo e, no fim de tudo, quem paga somos nós. Até quando?

*

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The Dark Knight - Esse será o novo filme do Batman, ainda como Christian Bale no papel principal e seguindo a mesma linha do sucessor, Batman Begins. A revista inglesa Empire bem que tentou esconder e ir revelando aos poucos a nova caracterização do vilão Coringa, mas a internet não perdoou. A capa de janeiro já vazou e você pode vê-la acima.

Na nova história, Batman (Bale) conta com a ajuda do Tenente Gordon (Gary Oldman) e do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart) para combater o crime organizado em Gotham City. Só que eles não contavam com a ascensão de um genial criminoso que atende pelo vulgo Coringa (Heath Ledger). O diretor Christopher Nolan prevê a estréia em janeiro de 2008.

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Música: O disco Want One, do Rufus Wainwright. Para ouvir mais do que a versão dele de Across The Universe, dos Beatles, na trilha do filme Uma Lição de Amor (I Am Sam).

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Botando o bloco na rua

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Enquanto a Hebe botava o ator André Ramiro, que interpretou o policial Matias no Tropa de Elite, no sofá morno de suas celebridades, a TV Cultura botou o cineasta José Padilha (foto) de cara com advogados, policiais e jornalistas no Roda Viva. Se a pauta já tinha a sua força pela absurda pirataria do longa-metragem, entrevistadores e telespectadores enfim tiveram respostas fortes para perguntas bem construídas se fixassem suas telas no canal 02.

Polícia arcaica – Padilha parecia um daqueles sujeitos atormentados, que vivem remoendo argumentos acerca de seus trabalhos. Muitas vezes iniciava suas palavras de cabeça baixa e olhos no chão, para em seguida encarar seus entrevistadores e metralhar pensamentos sobre o modus operandi arcaico da Polícia. Esse, aliás, foi o mais contundente dos argumentos, que gerou uma transparente surpresa nos olhos do Comandante presente. “A Polícia não está preparada para encarar os novos tempos da criminalidade porque sua estrutura é velha, dos tempos da Ditadura e daquele poderio militar que não se renovou. Com isso, não é de se estranhar que policiais venham mover ações judiciais contra a exibição do meu filme. Se tenta-se calar uma manifestação artística, que por si só enfatiza alguns pontos enquanto desfoca outros de uma mesma problemática, está provado que a Censura está viva e é um método recorrente desses profissionais”, disse. Depois dessa, o apresentador Markun estrategicamente chamou os comerciais.

Sangue na tela – Depois, ao perguntarem sobre a violência do seu trabalho, ele declarou que as reações que se seguiram são naturais – embora ele não tenha visto odes à tortura como relataram na Imprensa. Assim, ele se diz feliz pelo fato de seu filme inspirar discussões sobre a violência urbana. “Mas, apesar de tudo, temos que discutir a tortura, que não é digna sob nenhuma hipótese. Aliás, como podemos combater a violência usando mais violência?”, perguntou, conduzindo o papo para questões biológicas e psicológicas logo em seguida.

Padilha arrematou com uma intensa provocação àqueles que proclamam os soldados do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) como heróis.  “No fundo, aqueles que acham que a repressão violenta é a solução da criminalidade estão saindo da toca e revelando aquele velho traço de Direita”, incitou.

Alô, usuários – O arremate das discussões sociais propostas por Padilha e seus roteiristas (cabem aqui parênteses sobre a lição de coletividade, quando ele cita por diversas vezes que o sucesso do longa cabe ao grupo, a força do roteiro e das interpretações dos atores) teve mais uma bofetada na “juventude chapada”. Longe das lições de moral das campanhas anti-drogas, o cineasta disse que seu filme leva cruamente às telas o círculo do tráfico, esclarecendo que não se pode criticar um problema quando se faz parte dele.

Como acabar com isso? “Descriminalizar as drogas seria um bom começo. Afinal, quem disse que a maconha é mais prejudicial do que o cigarro e o álcool? Ou tratamos todas as drogas por igual, ou não mudaremos nada do que já vivenciamos”, sentenciou.

Cinema e Sociedade – Por mais que a mídia já tenha debatido insistentemente essas questões, elas continuam como chaves pois trata-se do próprio diretor sustentando as pautas de seu roteiro. Por sinal, Padilha revela-se um cineasta intenso, consciente da força dos recursos audiovisuais e do potencial explosivo que Elite da Tropa, o livro, teria nas telonas. Mais do que o retrato histórico – e até mesmo poético – das favelas, do tráfico de drogas e das rixas com policiais, José Padilha reacendeu a chama do cinema como transformador social em nossa terrinha.

Será que sua filmografia permanecerá assim? Só o tempo dirá.

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Quase-Cinema e Neo-Censura

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Quase-Cinema – A suburbana Linda (Sandra Bullock) acha que está pirando após a morte de Jim (Julian McMahon), seu marido. Entretanto, ela está em Premonições, um longa de roteiro confuso, cheio de idas e vindas que tentaram, mas não conseguiram imitar o estilão de Charlie Kaufman. Em um dia ela percebe que seu marido morreu, chora pacas e tudo parece normal em sua dor. No outro dia, ele reaparece e, sem entender nada, a vê abraçando-o e beijando como se fosse a última vez. Ele dá aquela olhadinha clichê para os lados, chamando o espectador para compartilhar de sua estranheza diante do fato. Nisso, o filme se perde na quase-maluquice de Linda, confundindo a todos e gastando película sem necessidade.

Repentinamente, o diretor Mennan Yapo começa a explicar-se. A narrativa quebra seu ritmo e revela um casal em crise, com uma dona-de-casa preocupada com os iminentes chifres que seu marido lhe colocará. Só que a traição não acontece, e o que rola é uma das mortes mais estúpidas da história do cinema. Sim, ela tinha tudo para provocar as nossas lágrimas, mas os extras da edição em DVD mostram como até a Bullock sacou o humor negro da morte do personagem de McMahon no filme. Aí a história mediana se encerra sozinha, com a resignação da dona-de-casa que percebeu que não está maluca, mas sim com um par de orelhas de asno ornamentando-lhe os cornos. E é só.

Se quiseres gastar dinheiro à toa, vá na locadora e pegue o DVD. Aí você mata a curiosidade, descobre como McMahon morre e percebe como o estúdio gastou de bobeira nessa produção.

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Neo-Censura – Enquanto querem barrar a estréia da adaptação do livro Elite da Tropa para o cinema, Alberto Dualib consegue liminares  judiciais para impedir a exibição de uma matéria jornalística sobre o escândalo Corinthians-MSI. De um lado, tratam do impedimento de uma obra artística, unilateral porém com intenso potencial questionador, enquanto no outro corner o exercício do jornalismo pleno foi barrado pelo próprio Dualib, pois ele não recebeu o repórter da TV Record para falar do caso.

Se você pensa que vivemos num sonho democrático, é bom abrir os olhos. Uma turminha de advogados “joga o caô” de que esses conteúdos levam imagens falsas dos envolvidos ao grande público, te enganam e disfarçam a nova cara da velha Censura. O que preferes: liberdade de expressão e informação ou novas roupas para velhos monstros?

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CD-PLAYER: Do You Believe In Rapture? e Turquoise Boy - Sonic Youth mandando ver em baladinhas para os corações experimentais. Esse é o som do retorno!

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Amizade e Poeira*

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[Johann (Ketnath) e Ranulpho (Miguel) em uma birosca paraibana.]

Bastou à equipe de produção retirar os postes de luz das pequenas cidades do sertão da Paraíba. Essa foi a mais significativa das manobras realizadas para compor as locações de Cinema, Aspirinas e Urubus, do brasileiro Marcelo Gomes. Com isso, o diretor colocou uma pergunta na cabeça de seu espectador: o que realmente mudou nesse cenário de sede, miséria e flagelados?

A história se passa em 1942 e, no fundo, não tem intenções políticas. É o relato do encontro do sertanejo Ranulpho (João Miguel), que pretendia fugir da aridez sem perspectivas do sertão, com o alemão Johann (Peter Ketnath), divulgador itinerante das então novíssimas e milgrosas Aspirinas. Se o nordestino maldizia seu povo e suas origens, o alemão também renegava as suas raízes – vale lembrar que é a época da 2ª Guerra Mundial. E é com esse argumento de fugas e descobertas que se desenvolve a trama.

Ranulpho vai se deslumbrando aos poucos com a vida de Johann, que viajava sozinho pelo sertão da Paraíba a bordo de um caminhão repleto de frascos de Aspirinas e rolos de filmes para divulgação das mesmas. Na cidade de Picote, Johann arma sua tenda para, após exibir um impactante vídeo sobre as promessas do incipiente analgésico, vendê-lo como água. Nisso, Ranulpho chama para si o título de ajudante do alemão, e com isso os dois desenvolvem uma sincera e bem humorada amizade.

Porém, a guerra segue e o Brasil declara-se inimigo dos alemães e seus aliados. Com isso, várias fábricas e comércios ligados aos alemães são fechados, bem como seus gerentes e proprietários presos. Nesse contexto, Ranulpho indica a Johann que o único caminho para que este siga fugindo é partir nos trens para a Amazônia junto dos “soldados da borracha”. Assim, o alemão queima seus documentos e segue viagem. Como herança a Ranulpho ficam o velho caminhão e as novíssimas paixões que foi capaz de despertar no sertanejo, que até deixou de lado a sanha de fugir da seca (com direito até a uma poética cena final).

A ensolarada fotografia por vezes é encoberta pelos closes propositais das câmeras, a fim de mostrar como o calor desidrata e faz suar os protagonistas. Pela noite, o breu os engolia, deixando apenas a pequena claridade da fogueira encimada pelo céu estrelado. Mas lá estavam as cidadelas da  seca, com seus desconfiados e isolados habitantes a lutarem pela sobrevivência por meios rudimentares. E lá também estava o sol de rachar, como hoje. Com isso, se não fossem as pinceladas do rádio a bordo do caminhão e do estilo dos filmes institucionais das Aspirinas, a trama seria perfeitamente adaptada aos nossos tempos. Afinal, nos nossos dias de Fome Zero e Seca à Mil, pouquíssima coisa mudou no sertão. É isso que Gomes sutilmente nos mostra, manobrando delicadamente nossa noção do tempo.

*Publicado na Folha Obara, editada e conduzida pelo camarada Gustavo Abdel.

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CD-PLAYER: Descobrindo os americanos melancólicos do Pedro The Lion, enquanto o Marcelo Costa traduz aqui muito do que senti falta em Zeitgest, dos Smashing Pumpkins. Canções tristonhas com violões folk e Fender Jazzmaster de um lado, enquanto Costa radiografa o “rock burro” que os Pumpkins preferem tocar.

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Entre o público e a crítica*

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O tempo mudou Leonardo Di Caprio. Depois de arrebatar corações em Romeu e Julieta (1996), seus olhos claros e feições delicadas renderam outros convites. No ano seguinte, o diretor James Cameron chamou-o para interpretar Jack, o viajante pobretão a bordo do navio Titanic. O longa alavancou sua carreira, já que foi o mais premiado dos últimos tempos. Entretanto, depois de toda essa repercussão, Di Caprio ainda não somou a estatueta de Melhor Ator para a coleção de onze Oscar’s do longa. Para a aura de vaidade hollywoodiana, esse jejum estava entalado em sua garganta.

Nove anos se foram. Além de namorar uma brasileira, ele somou experiências e fracassos no cinema. Afinal, em todas as filmagens era a mesma cara, que rendia suspiros das mulheres e blasfêmias dos homens. Indiretamente, isso rendeu comentários nos bastidores de que, por mais indicações que tivesse, o ator nunca cativaria os jurados. Assim, ele surgiu no Oscar desse ano com duas apostas sensacionais – já nas videolocadoras.

A primeira aposta foi no movimentado Diamantes de Sangue. O filme mostra a entrada da jornalista Maddy Bowen (Jennifer Conelly) e do traficante de pedras preciosas Danny Archer (Di Caprio) em Serra Leoa, no meio da guerra civil. Lá reside o pescador Solomon Wandy (Djimon Hounson), cuja família foi separada pelos revolucionários e seu filho aliciado por eles. Wandy quer seu filho de volta, mas só ganhará a ajuda de Archer se lhe contar onde está o diamante que conseguiu esconder dos guerrilheiros. Já Bowen conhece-os e vislumbra nessa história a melhor de todas as suas reportagens já publicadas.

Em Os Infiltrados, a outra aposta, fala sobre um braço da máfia irlandesa em Boston, liderado por Frank Costello (Jack Nicholson). Ele nem desconfia de que William Costigan (Di Caprio), aquele garotinho franzino que ele tanto gostava, havia se tornado um policial com a missão de espioná-lo. Já o agente Colin Sullivan (Matt Damon) é seu informante na polícia local. Cada um com sua missão e interesses, Costigan e Sullivan são como ratos pela casa: um sabota o outro. Suas ações se cruzam durante o longa e os dois sentem a amarga contradição entre os interesses pessoais e as missões de trabalho.

Mesmo sem premiações, Di Caprio consegue conciliar a forte atuação com uma estampa convincente. Com rugas e olheiras na cara, ele passa uma impressão mais real da força de seus personagens, resultado também de seu aprimoramento como ator. Leo dá peso aos seus personagens que, mesmo envolvidos na ‘barra pesada’, têm seus momentos de reflexão e até de mudança de rumo. Isso prova o amadurecimento interno e externo do ator, mesmo com vários prêmios sempre batendo na trave.

Mas qual é o reconhecimento mais importante: do público ou da crítica?

*Publicado na Folha Obara, editada e conduzida pelo camarada Gustavo Abdel.

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CD-PLAYER: Don’t Take Your Guns To TownJohnny Cash

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Ultra-rápido

I – Amadurecendo com o Gusta Abdel uma idéia de um texto sobre como o Di Caprio (acima) mudou seu estilo ‘galã pueril’ ao estrelar Diamante de Sangue e Os Infiltrados. Pode circular no jornal de pequeno porte do ilustre camarada, ou então figurar diretamente por aqui.

Em maturação.

II – Após classificar-me entre os 10 primeiros no concurso público que prestei dentro da minha área de formação acadêmica, sobra o ligeiro abatimento pela não-aprovação imediata. “Listas de espera”, “prováveis desistências”… nada disso me convence.

Mas isso passa logo, logo. Obrigado pelo apoio, amigos!

III“Pronto, já cantei. Felizes? Então tchau!” Essa deve ter sido a primeira frase da Amy Winehouse após cantar pra cacete no MTV Movie Awards 2007. Meio blasé, meio bêbada, mas cantora por completo.

Que Rihanna, que nada!

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Um tom de esperança*

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De tanto falarem sobre Babel, a sua história ficou previsível. Esse foi o sentimento que percebi enquanto finalmente o assistia no DVD, já que os cinemas daqui (mais uma vez) não colaboraram. Aliás, o estilo de Iñárritu, com sua narrativa não-linear e cruzamento de tramas internas, também era uma agradável previsão. Só que, depois de diversos prêmios e muito falatório, a verdade é que criei expectativas demais diante do filme.

O diretor mexicano declarou que esse é o desfecho de sua “trilogia da morte”. Se em Amores Brutos (2000) os personagens saíam do prazer ao sofrimento e, em 21 Gramas (2003), as feridas permaneciam abertas, Babel sinaliza uma ascendência nesse gráfico. O declive de 2000 e o zero-a-zero de 2003 ganham cores de esperança em 2006, com pessoas que sinalizam um pré-interesse em curarem suas feridas – individual ou coletivamente. E é nessa trajetória ascendente que a trama esbarra em ares de dramalhão noveleiro, com contradições que mostram clichês da narrativa ao mesmo tempo em que esses chavões nos fazem refletir.

O vai-e-volta da narrativa cruza as histórias de dois irmãos marroquinos que atiram acidentalmente num ônibus de turismo e atingem Susan (Cate Blanchett), esposa de Richard (Brad Pitt). Então o velho fatalismo do roteirista Guillermo Arriaga** mostra como é necessário o acontecimento de uma bela cagada para sacudir e posteriormente unir os personagens, mesmo sem laços explícitos. Já os outros núcleos da narrativa sentem as vibrações do caos no Marrocos: a jovem surda-muda Chieko (Rinko Kikuchi) extravasa suas dores ao seu modo, enquanto a empregada mexicana Amelia (Adriana Barraza) só percebe que ‘arrumou sarna para se coçar’ depois que o sobrinho Santiago (Gael García Bernál) apronta na fronteira. Todos sentem as consequências do estopim marroquino, como a tensão causada por uma gota caída na superfície d’água, e recomeçam suas vidas – exceto os coitados dos camponeses do Marrocos.

No resumo, não é um filme genial como apontavam: soa como um meio termo entre a ação do primeiro com a introspecção do segundo. Entretanto, é uma peça obrigatória para quem conhece a filmografia de Iñárritu, pois encerra um argumento desenvolvido por ele ao longo das três tramas: como apenas a violência é capaz de chocar nossa zona de conforto e ressuscitar nossa condição humana.

*Publicado na Folha Obara, editada e conduzida pelo camarada Gustavo Abdel.

**O roteirista Guillermo Arriaga estará na Festa Literária Internacional de Paraty, falando sobre seu terceiro romance e sobre a repercussão dos seus trabalhos no cinema. Leia mais aqui.

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Bruna, te amo! - (3 x 365) + 90 = 1095 + 90 = 1185 dias ao teu lado.

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CD-PLAYER: A versão inglesa de Era Vulgaris, o novíssimo do Queens Of The Stone Age. Além das aguardadas faixas normais do lançamento, há duas faixas bônus. Enquanto alguns se matam com arquivos corrompidos pelo Orkut, com baixa qualidade ou então com uma bandinha cover imitando os caras, um inglezinho soltou o disco de verdade no Soulseek.

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Férias e descobertas

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1970. Efervescência político-cultural, repressão dos militares e a Copa do Mundo. No nosso recanto terceiro-mundista, o primeiro era bode expiatório dos segundos, que tentavam disfarçar as merdas que faziam com o desempenho do escrete canarinho no México. Para os pais de Mauro (Michel Joelsas), tudo foi obrigado a mudar graças à repressão militar. Porém, o garoto foi preservado, com seu futebol de botões e a ânsia pelos jogos do Brasil na Copa. Só que, contra a sua vontade, seus pais tiveram que deixá-lo por um período na casa do avô (Paulo Autran) no Bom Retiro, em São Paulo, enquanto escapavam da repressão.

A partida dos pais o fez o “goleiro”, ou seja, aquele que observa o jogo de longe e, sozinho na grande área, espera pelo pior. E afase ruim veio em sequência. Seu avô morreu após a notícia da vinda do neto sob esse contexto. Com isso, o garoto passa vários dias sob os cuidados quase displiscentes do polonês Shlomo (Germano Haiut), judeu ranzinza e solitário que só resolve cuidar do garoto de fato após as recomendações do rabino, que acha que há uma razão divina para Mauro chegar até a casa dele. Só que Mauro é uma criança como qualquer outra, que faz amizades pelo prédio e delira com as jogadas de Pelé e Tostão pela TV. Isso faz com que a adaptação entre os dois seja a parte engraçada da história.

Mas Shlomo precisa saber quem são e onde estão os pais do moleque, pois “essas férias estão demorando muito”. É nesse momento que Ítalo (Caio Blat), universitário engajado cuja descendência italiana aparece até no nome, traz notícias ao velho de que os pais de Mauro estão na luta armada. Foi o que bastou para que os militares espiões arrastassem Shlomo e obrigassem Ítalo a também sair de férias. Só que Mauro, em toda a sua inocência, não entendia o porquê de todos sumirem do mapa e Shlomo ter sido levado pela Polícia, mesmo após ver de perto uma investida da Cavalaria na universidade em que Ítalo estudava e o ferimento que lhe causaram na cabeça.

É essa, amigo(a) leitor(a), a poesia do longa. Mauro descobriu um novo mundo, ainda que com todos os conceitos pela metade. Seu baile ao som de Roberto Carlos foi interrompido pelo ruído da Cavalaria e o tricampeonato mundial da Seleção não tinha o mesmo valor depois do retorno de sua mãe ferida. Haviam fatos dolorosos, mas ninguém teve coragem de desmontar suas fantasias. Com isso, sua inocência permanece doída, com uma pureza que rasga as emoções de quem o ouve. Pois ele tinha apenas doze anos, e só mais tarde ele saberia o porquê do maior de todos os atrasos de seu pai.

P.S.: Some ao Cabra-Cega, de Toni Venturi, como mais um excelente retrato do período da Ditadura Militar brasileira. E, por favor, ignore Olga.

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CD-PLAYER: And All That Could Have Been, o disco ao vivo do Nine Inch Nails.

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Meia-idade antecipada

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No primeiro instante, a falta de opções no cinema parecia castigar o fim da semana. A situação era ainda mais desesperadora por percebermos que a filial da rede de cinemas daqui nunca colabora com quem gosta da arte. Foi então que, um tanto receoso, concordei com a minha gata e resolvemos assistir Um Beijo a Mais, do Tony Goldwyn. Parecia ser mais uma comédia romântica cheia de superficialidades, bobeiras e uns lances “bonitinhos”, mas ocos. Só que me enganei redondamente.

Zach Braff caiu perfeitamente bem no papel de Michael, um arquiteto que está de casamento marcado com Jenna (Jacinda Barret), sua namorada de longa data que está grávida. As responsabilidades batem forte em sua porta o perturbam. Sem saber se está realmente pronto para ficar o resto da vida ao lado de Jenna e formar uma família de fato, ele cede às tentações de Kim (Rachel Bilson), uma universitária doida por homens mais velhos. Aí, como todo crime não é perfeito, Jenna descobre a traição e a casa de Michael cai de vez.

Paralelamente à crise de Michael, os mundos de seus amigos de infância e também de seus sogros passam por intensas modificações. Por instantes, ele teme que sua vida seja igual à de Chris (Casey Affleck), que perdeu os momentos de intimidade com a mulher e ouve xingamentos dela desde que seu filho nasceu. Outrora, ele desejava ser como Kenny (Eric Christian Olsen), barman e galanteador, mas o rapaz não se reconhece desde que percebeu que não consegue mais tirar uma garota da cabeça. Já Izzy (Michael Weston) seria seu estilo caso terminasse com Jenna, pois o cara fica doido após terminar com a namorada e, sem grana para sair da casa dos pais, assume-se como “andarilho vagabundo” e aluga um motorhome para cair na estrada ao lado de Kenny. Isso sem falar no turbilhão enfrentado pelo sogro de Michael, Stephen (Tom Wilkinson), ao descobrir que sua esposa Anna (Blythe Danner) o traiu por um bom tempo. Seriam seus sogros o retrato da maturidade após 30 anos juntos?

Tudo parece triste, cheio de tragédias, mas não é. Os desfechos não são tão felizes, mas são interessantes por serem muito próximos da realidade. Com isso, o longa se mostra um interessante retrato das possíveis fases enfrentadas por todos nós em nossos relacionamentos entre amigos, amores e família, inspirada livremente no longa italiano L’Ultimo Baccio, de Gabriele Muccino. Com roteiro do premiado Paul Haggis (de Crash – No Limite), é uma refilmagem americanizada, com Coldplay e Snow Patrol na trilha sonora e um ritmo mais rápido do que o original europeu. Com olhos críticos, percebe-se que há uma profundidade maior no filme italiano, mas ainda assim os americanos não perdem tanto em qualidade graças ao jeitão indeciso e hilário de Zach Braff e à força do casal Tom Wilkinson e Blythe Danner.

Com atenção aos detalhes, você muda de idéia ao ver Um Beijo a Mais. Não é um primor cinematográfico, muito menos uma cópia equiparada ao original. Mas também não é uma diversão para rir à toa e não levar nenhuma mensagem para casa.

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CD-PLAYER: Baby 81, o novo disco do Black Rebel Motorcycle Club.

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Nova filmagem, velhos defeitos

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Toda adaptação de histórias em quadrinhos tem suas tintas fortes. Isso é óbvio nesse terreno fantasioso, onde os heróis são incríveis e suas batalhas são épicas. Porém, o quadrinista Frank Miller e sua equipe, tanto em Sin City como no novíssimo 300, conseguem se perder facilmente em suas fixações por sangue e ideais heróicos em suas tramas ao ponto do roteiro ser surrado e jogado de lado no meio de tantas cenas violentas. Isso já ocorreu em Sin City e, mais uma vez, Miller não consegue sustentar a adaptação de seu próprio trabalho em HQ.

É inegável o esmero dos diretores de fotografia e das equipes de efeitos especiais, que transferiram para as telonas toda a mágica das revistas: tudo parece desenhado. No início, esses eram os grandes atrativos dos seus longas – que são aguardados há meses pelos fãs ardorosos das graphic novels de Miller. Mas, no decorrer de 300, assim como em Sin City, os diálogos começam a soar forçados e as cenas de ação, mesmo tão caprichadas, tornam-se os únicos momentos em que a platéia deixa de bocejar. Será que Miller se reprisou?

Inspiração passada – Em 300, o diretor Zack Snyder ajuda Miller em seu retrato sobre a Batalha de Termópilas, onde o Rei Leônidas (Gerard Butler) levou 300 soldados de Esparta para um combate mortal contra o exército do Rei Xerxes (Rodrigo Santoro, totalmente digitalizado). Essa história já virou filme em 1962, em Os 300 de Esparta, e foi a grande inspiração para o desenhista. Mas, mesmo com todos os esforços, a trama não agrada aqueles que esperam um filme rico em detalhes históricos, assim como o longa antigo.

Mas não parece que Miller estava ligando para a realidade. Assim como nas revistas, 300, o filme, se concentra nas lanças, espadas e escudos dos bravos guerreiros espartanos. Aliás, chega um momento em que toda essa idealização de bravura cansa. Os diálogos ficam escassos (uma falha, já que a ironia do Rei Leônidas estava ótima) e a história, que começou bem ao retratar a preparação dos garotos espartanos, perde o encanto à partir da segunda metade - assim como a parte final de Sin City, mesmo que este não tenha nada a ver com 300. Opa! Diálogos forçados, perda do encanto… Já falei disso, não?

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Nem toda a mídia feita em cima do brasileiro Rodrigo Santoro, que lotou várias salas na estréia, sustenta o trabalho. Parece até que avacalharam com o brasileiro, entregando-lhe um Xerxes mais afetado do que o resto dos personagens. Mas, por outro lado, esse tipo de filme não exigia tanto dos atores. De qualquer forma, é interessante ver um ator brasileiro furando a panelinha americana, levando seu trabalho para o resto do mundo. Isso encheu os olhos e bocas do público, principalmente da mulherada. Mas que a fala do Santoro na cena acima é dúbia, é!

Dois longas, um defeito300 é perfeito para quem quer boas cenas de ação e, de preferência, já sabe do “esquemão Miller” – com todos os prós e contras. Nem parece que é um filme feito quase por completo no computador, tamanha a qualidade da fotografia e dos efeitos visuais. Mas, para quem já conheceu a epopéia dos 300 espartanos, será um programa para desvendar delírios artísticos e também erros históricos. Se não levá-lo tão a sério, vai valer a pena.

É por essas e outras que sou mais o Alan Moore.

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CD-PLAYER: Fast As You CanFiona Apple

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Filmes de processos

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Embora com formatos diferenciados, RKO 281, de Benjamin Ross, e Capote, de Bennett Miller, são filmes sobre processos criativos e de execução de duas outras obras. O primeiro longa foi uma produção conjunta com a HBO e mostra como Orson Welles (Liev Schreiber) convenceu o roteirista e amigo pessoal Herman Mankiewickz (John Malkovich) a ajudá-lo na produção de Cidadão Kane, um trabalho que dispensa comentários. Já o segundo filme traz Philip Seymour Hoffman inspiradíssimo na pele de Truman Capote, o escritor americano que foi um dos protagonistas do Novo Jornalismo e lançou A Sangue Frio, livro inspirado no seu contato com dois assassinos numa pequena cidade do Kansas.

RKO 281 é declaradamente um filme feito para televisão. Isso assegurou um maior dinamismo na narrativa, que mostra como Welles, ao criticar a arrogância de um milionário com quem discutira num jantar, quase se transformou no próprio aristocrata. Adepto do “para ser perfeito, faça você mesmo”, ele incitou um ritmo sobrehumano à sua equipe, mas não conseguiu manter a temática do seu trabalho longe da Imprensa – algo que, depois de sua transmissão de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, em plena rádio, era algo difícil de se fazer. Isso sem falar no enorme risco do próprio milionário em questão descobrir uma sátira sobre si mesmo. Porém, como todos sabemos, Welles conseguiu convencer os executivos do pequeno estúdio RKO a financiarem a produção 281 e, assim, finalizar sua obra-prima.

Capote traz um ritmo mais arrastado, rico em detalhes. Bom, talvez sejam um tanto esxcessivos para somarem 1:38h de duração. Nele, Hoffman encarna perfeitamente os trejeitos femininos, as roupas pouco convencionais e a voz infantilizada de Truman Capote. Pena que o desgaste na redação de A Sangue Frio, sucessor de Bonequinha de Luxo, fechou a fábrica de Truman e marcou-o como o escritor que viveu o pior dilema de todos: o reconhecimento do lado humano dos dois assassinos com quem conviveu. Ao diagnosticar a culpa, o arrependimento e o medo da cadeira elétrica neles, Capote fez de tudo para atrasar a execução da dupla, mas esbarrou na sede de justiça do povo de Holcomb, no Kansas.

No ar, RKO 281 deixa o questionamento sobre a postura de Welles. Já Capote, ao levantar os (des)motivos dos seus alvos, chega até a questionar a legitimidade das penas de morte. Porém, o que realmente conta aqui é como esses ‘filmes de processos’, como gostei de chamar, retratam um cineasta e um escritor no dia-a-dia que mudou suas respectivas vidas. É uma visão dos bastidores, com todas as dúvidas e certezas que envolveram seus respectivos trabalhos. Tal visão só acrescenta àqueles que já gostam do livro e do outro filme em pauta. Se você é mais um dos admiradores, corra já até a sua locadora!

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CD-PLAYER: Rebellion (Lies)Arcade Fire – Para pagar pela boca por tudo o que já desgostei no trabalho dos canadenses. Outro dia falo disso.

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Entre pesares e surpresas (Início)

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A Rede Globo tem uma péssima transmissão do Oscar, não dá para negar. Maria Beltrão continuava animadinha, cheia de graça mesmo depois do Carnaval acabar, e contrastava com o jeitão bêbado de José Wilker – que já virou figura carimbada do “Pânico na TV” – e a tradução nada simultânea de Elisabete Hart. Com tanta gente falando, não dava nem para testar o Inglês durante a cerimônia. (Em contrapartida, mesmo com uma semana de atraso, o SBT deu um show na apresentação do 49º Grammy: tudo legendado! Mas isso é uma outra história.)

Alguns pesares – Entre os premiados, Babel e Pequena Miss Sunshine mereciam mais prêmios. Reconhecer apenas a trilha sonora da primeira e o roteiro da segunda produção foi pouco, mas era um resultado esperado por uma ala da crítica. Afinal, mesmo com um elenco de peso, a Academia pode ter pensado demais na nacionalidade de Iñárritu e na independência de estreantes do casal Jonathan Dayton e Valerie Faris. Uma pena.

Entre os atores e atrizes, o favoritismo de Helen Mirren e Forrest Whitaker confirmou-se entre os principais. Na turma dos coadjuvantes, Alan Arkin foi o que mais me atraiu, já que nem toda a garra de Jennifer Hudson vale a força de Adriana Barraza. Enquanto Hudson chorava ao receber a taça, eu achava que era o único a discordar do seu prêmio entre o pessoal que assistia a premiação. Um ou dois blocos depois, entram a própria e Beyoncé Knowles para berrar no palco e mudar as idéias dos presentes.

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Surpresa – Pouco depois, José Wilker ressurgiu de seu quase-silêncio e começou a filosofar. Mas, mesmo que ele ache que a Academia exagerou na mea-culpa com o diretor Martin Scorcese, Os Infiltrados é uma porrada: diálogos incisivos, elenco apurado e uma fluência de narrativa e edição como não se via há tempos. Se O Aviador dava sono de tão longo, Os Infiltrados cativa pela ação que prende os olhos desde a abertura – com direito a Street Fighting Man, dos Rolling Stones, ao fundo.

Dentro de um páreo duríssimo, que revelou uma safra de longas melhor do que a premiação passada, o punch de Scorcese surpreendeu quem dava como certa a vitória de A Rainha, de Stephen Frears. Uma bela surpresa também para quem imaginava uma busca de novas fórmulas e talentos por parte dos julgadores, supostamente sinalizada pela vitória de Crash – No Limite no ano passado. Nesse ano, os velhos nomes do bom cinema mostraram sua força e a Academia deu o braço à torcer. Ainda bem.

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(Devido ao tempo de ausência, publiquei três textos relacionados pela cronologia. Seguem as duas outras partes logo abaixo.)

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