Ontem, a APCM (Associação AntiPirataria Cinema e Música) conseguiu vencer os membros da comunidade Discografias, considerado o maior ponto de encontro de quem gosta de MP3 no Orkut. Depois de diversas ameaças deste órgão, que representa um conglomerado de empresas de entretenimento, os moderadores – ainda não identificados – optaram por encerrar as atividades do fórum. Em nota aos membros da comunidade, os moderadores afirmam que a defesa de interesses não-lucrativos por parte das empresas representadas pela APCM – Universal, Sony, Columbia, Warner, MGM e outras mega-corporações do ramo no Brasil – é mentirosa. “Tais empresas se dizem sem fins lucrativos. Vamos acreditar nisso, né, gente? Como acreditamos em histórias da carochinha”, ironizam. O comunicado termina com a indicação do endereço físico e do e-mail, bem como dos números de telefone e fax, de Bruno Tarelov, representante da APCM.
Briga antiga – Os moderadores já viviam desde 2008 uma espécie de perseguição ao conteúdo da comunidade. Por meio de denúncias ao Google, mantenedor do Orkut, a APCM conseguia eliminar os tópicos que continham links para download dos arquivos que, normalmente, continham todas as canções dos discos de cada um dos artistas compilados em um arquivo ZIP. Para combater o que chamavam de censura, os membros organizaram um abaixo-assinado virtual contra essas práticas, que ganharam ainda mais força após o projeto de Lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Tal projeto determinava que os provedores de acesso à Web poderiam fornecer informações pessoais de internautas sob investigação por condutas supostamente ilegais, como pedofilia e, logicamente, o download de músicas. Entretanto, mesmo com o projeto de Lei parado no Congresso, a iniciativa judicial da APCM deu resultado.
Repercussão – Com quase 920 mil membros, a comunidade refletia o comportamento da juventude atual. Diversas pesquisas já revelaram que as novas gerações não sabem as diferenças entre a qualidade de áudio digital e a analógica, por não terem conhecido o vinil e consumirem quase que totalmente as músicas no formato digital. Tal comportamento também fortalece o índice de vendas de tocadores de MP3 e acessórios como gravadores de CD e DVD-R, estabelecendo um choque de interesesses e também uma contradição mercadológica. Afinal, o mesmo mercado que combate o download de músicas é aquele que vende iPod’s e CD/DVD-Recorders em progressões geométricas. A indústria insiste no rótulo da ilegalidade, do desvio de verbas relacionadas aos direitos autorais, mas também nunca esclarece ao certo quanto os artistas recebem em seus contratos – e obrigam os mesmos a investirem mais nas turnês do que na vendagem de discos.
Artistas como Robbie Williams e Radiohead vão à Corte inglesa defender fãs que são processados pela indústria fonográfica. E o próprio Radiohead é um grupo que rebelou-se contra o esquemão das gravadoras e deixou que seus fãs atribuíssem valor às suas músicas – que foram baixadas também pela internet. Dessa maneira, a banda inglesa deixou a tarefa financeira na mão dos próprios fãs, que também estavam livres para baixar de graça, se quisessem. Isso prova que os artistas mudaram suas visões sobre a indústria e o consumidor final. Assim, por que a indústria insiste em seus anacronismos?
Enquanto a APCM comemora, o mesmo Google que ajudou na exclusão de tópicos da Discografias continua listando links para download sempre que o internauta usar o seu serviço de busca. Isso sem falar nos torrents, que logo serão os próximos alvos.
