O novo consumo musical

Em maio de 2007, Trent Reznor desferiu suas velhas críticas às práticas das grandes gravadoras. Naquele momento, o alvo era o alto preço de varejo de Year Zero, trabalho anterior do Nine Inch Nails. Segundo ele, “como recompensa por ser um fã verdadeiro, você é roubado”, dentre outras. Vale lembrar que dois meses antes do lançamento oficial desse mesmo disco, a banda iniciou um alternate reality game por meio de USB drives com arquivos MP3 intencionalmente espalhados durante shows do grupo. Dentre o conteúdo dos drives, os fãs encontravam links para sites fictícios relacionados à temática do álbum. O resultado foi uma ação da RIAA (Associação da Indústria Fonográfica Americana) que tratou de fechar sites que compartilhavam esses conteúdos, o que enervou Reznor.
Nove meses depois, Reznor divulgou uma mensagem misteriosa no site da banda, com título “02 semanas”. Já em março, saiu Ghosts I-IV, álbum duplo com 36 faixas instrumentais que, além da óbvia experimentação com distribuição digital, marca o início da nova fase da banda sem contrato com uma gravadora. O fã escolhe entre o download gratuito do primeiro volume (com 09 músicas), o download completo por US$ 5 ou a edição dupla em digipack por US$ 10. Quem gosta de luxo pode levar os dois CD’s e um DVD por US$ 75, ou então desembolsar US$ 300 numa edição limitada com 04 CD’s e um álbum de fotografias assinado por Reznor.
E a música? – Gravado em 10 semanas de outono no hemisfério Norte, o disco é considerado por Reznor uma trilha sonora para sonhos diurnos. Segundo ele, a perspectiva visual envolveu cenários com imagens e sons onde as vozes não eram necessárias. “Começamos com improvisos, pensando em um EP com cinco canções, e a música nos guiou. Em alguns dias, ficou clara a qualidade do material e percebemos que estávamos dando forma a um belo trabalho que não seria permitido facilmente pelas grandes gravadoras”, disse. O resultado é um experimento eletrônico com texturas de piano, violões, guitarras distorcidas e algumas colagens sonoras que só é compreendido por completo quando os 04 volumes tocam direto no player, estimulando a imaginação a buscar imagens de maneira mais livre do que em canções com letras definidas.
Estaria Reznor cansado de discursar?

[Reznor (de verde, ao centro) e banda.]
Revolução digital – O lançamento de Ghosts I-IV segue uma linha semelhante à adotada pelo Radiohead com seu In Rainbows, indicando que os artistas estão cada vez mais preocupados com as mudanças causadas pela web. Com apenas três dias de lançamento, Reznor faturou US$ 750 mil com seu “álbum de graça” – sem falar na intensa divulgação das MP3 que também ocorre nos peer-2-peer ilegais. Tal fato deixa ainda mais evidentes os nichos de consumo musical: aqueles que baixam para experimentar – cuja aprovação é efetivada ao queimarem um CD-R, e os que baixam as MP3 mas depois compram os originais. Além disso, os consumidores do segundo nicho têm mais derivações, visto que têm mais opções de regalias (álbuns de fotos, discos bônus e outros materiais) para adquirir de acordo com o poder aquisitivo.
Mas, para Reznor, a verdadeira revolução está em suas mãos. Em entrevista à Digital Music News, ele disse que o Radiohead usou a distribuição digital apenas como isca para um produto de pouca qualidade. Com isso, Reznor supõe que o alarde com os ingleses é um tanto desnecessário. “Não vejo que o que eles fizeram mereça ser chamado de revolução”, disse. Gabando-se do conceito instrumental, Trent?
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emi 18:49 em Domingo, 30 Março 2008 Link Permanente |
leo…
*abraça*