
1970. Efervescência político-cultural, repressão dos militares e a Copa do Mundo. No nosso recanto terceiro-mundista, o primeiro era bode expiatório dos segundos, que tentavam disfarçar as merdas que faziam com o desempenho do escrete canarinho no México. Para os pais de Mauro (Michel Joelsas), tudo foi obrigado a mudar graças à repressão militar. Porém, o garoto foi preservado, com seu futebol de botões e a ânsia pelos jogos do Brasil na Copa. Só que, contra a sua vontade, seus pais tiveram que deixá-lo por um período na casa do avô (Paulo Autran) no Bom Retiro, em São Paulo, enquanto escapavam da repressão.
A partida dos pais o fez o “goleiro”, ou seja, aquele que observa o jogo de longe e, sozinho na grande área, espera pelo pior. E afase ruim veio em sequência. Seu avô morreu após a notícia da vinda do neto sob esse contexto. Com isso, o garoto passa vários dias sob os cuidados quase displiscentes do polonês Shlomo (Germano Haiut), judeu ranzinza e solitário que só resolve cuidar do garoto de fato após as recomendações do rabino, que acha que há uma razão divina para Mauro chegar até a casa dele. Só que Mauro é uma criança como qualquer outra, que faz amizades pelo prédio e delira com as jogadas de Pelé e Tostão pela TV. Isso faz com que a adaptação entre os dois seja a parte engraçada da história.
Mas Shlomo precisa saber quem são e onde estão os pais do moleque, pois “essas férias estão demorando muito”. É nesse momento que Ítalo (Caio Blat), universitário engajado cuja descendência italiana aparece até no nome, traz notícias ao velho de que os pais de Mauro estão na luta armada. Foi o que bastou para que os militares espiões arrastassem Shlomo e obrigassem Ítalo a também sair de férias. Só que Mauro, em toda a sua inocência, não entendia o porquê de todos sumirem do mapa e Shlomo ter sido levado pela Polícia, mesmo após ver de perto uma investida da Cavalaria na universidade em que Ítalo estudava e o ferimento que lhe causaram na cabeça.
É essa, amigo(a) leitor(a), a poesia do longa. Mauro descobriu um novo mundo, ainda que com todos os conceitos pela metade. Seu baile ao som de Roberto Carlos foi interrompido pelo ruído da Cavalaria e o tricampeonato mundial da Seleção não tinha o mesmo valor depois do retorno de sua mãe ferida. Haviam fatos dolorosos, mas ninguém teve coragem de desmontar suas fantasias. Com isso, sua inocência permanece doída, com uma pureza que rasga as emoções de quem o ouve. Pois ele tinha apenas doze anos, e só mais tarde ele saberia o porquê do maior de todos os atrasos de seu pai.
P.S.: Some ao Cabra-Cega, de Toni Venturi, como mais um excelente retrato do período da Ditadura Militar brasileira. E, por favor, ignore Olga.
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CD-PLAYER: And All That Could Have Been, o disco ao vivo do Nine Inch Nails.
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