CRONISTA URBANO 3.0

Música, cinema, livros e o cotidiano.

Cinza e vermelho

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O dia estava pintado de cinza. Seus tons eram de um estresse no trabalho que, pouco depois, quase respinga sua fúria na companheira. A cabeça parecia explodir, com um inchaço psicológico e uma dorzinha tão insistente quanto tinitus. Se os olhos estavam vermelhos, ele não sabia ao certo. Porém, todos sabiam que poucos seriam os bravos que o agüentariam naqueles dias.

Na volta do trabalho, uma cena o acalmou. Não havia qualquer razão aparente para tanto, mas aquela manifestação apaixonada o fez pensar no amor; no sentimento que ele deixara de dar aos seus próximos, sejam eles esposa ou pais. A paixão estava expressa naquele rapaz engravatado, com o corpo estirado no capô de um Uno Mille em movimento. Seus braços estavam abertos como Cristo, provavelmente pagando por palavras mal colocadas ou atitudes incompatíveis. Já suas mãos, que antes levavam um buquê de flores, sofriam para mantê-lo agarrado às bordas laterais do pára-brisa. As rosas vermelhas espatifadas pelo asfalto, esmagadas pelos pneus, mostravam o que poderia acontecer com ele caso se soltasse do automóvel. Mas ele lá queria saber disso tudo?

Os gritos do amante/suicida chamavam a atenção dos transeuntes. Ela, com a cabeça na janela, mandava-o soltar-se, mas o seu pé não descolava do acelerador. De repente, aquele quase crime passional fez o antes estressado pensar nas suas relações com as outras pessoas. Curiosamente, sua reflexão o acalmou e, minutos depois, ele usava o telefone ou então ia até as casas para expressar como gostava delas.

O apaixonado? Bem, aquele seguiu agarrado no carro, com os protestos da namorada a altos brados. Ninguém pelo bairro soube o que lhe aconteceu, mas o “Garoto Enxaqueca” sentiu os efeitos positivos daquela cena.

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P.S.: O Ezequiel tem um ótimo texto sobre a cultura do medo imposta pela mídia. Segundo sua pesquisa, não é de hoje que a Imprensa investe em catástrofes mundiais. A mídia nos transforma em seus ”patos habituais”?

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CD-PLAYER: Ela Faz CinemaChico Buarque

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3 Responses

  1. gusta disse:

    Um início com pitada de F. Pessoa!
    Obersevação clara dos fatos, realçaram credibilidade e vigor textual.
    Resumindo: Tu és foda!
    Grande abraço colega!

  2. ôba!
    literatura em grande estilo!

    adorei o texto!

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