O quase-paraíso de Hemingway

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Doente e psicótico, Ernest Hemingway se matou com uma caçadeira em julho de 1961. Mas, quinze anos antes, ele começara a escrever obra que talvez seja a mais reveladora sobre sua vida: O Jardim do Éden, sobre as férias de um escritor e sua esposa em La Grau-du-Roi, na França, entre drinques e tardes ao sol, trabalho literário e diversão. Era lá que os personagens David Bourne, escritor com um primeiro romance de sucesso, e sua esposa Catherine, curtiam a lua-de-mel até que Marita entra em suas vidas e inicia o jogo de paixões e ménages.

Mesmo com um resumo sensual e poderoso da história, é preciso conhecer a vida pessoal de Hemingway para entender a revolução pessoal que O Jardim do Éden causou. Era mais uma narrativa autobiográfica, porém com pitadas de um certo remorso que Hemingway ruminava por tantos relacionamentos rompidos, por sua própria vontade, ao longo dos anos.

As mulheres da vida real – Ernest conhecera Elizabeth Hadley com 21 anos, e ela tinha oito anos a mais que ele. Durante um período de lua-de-mel na Riviera Francesa, o casal conhece Pauline Pfeiffer e a jovem confessa sua paixão por ele. Ao saber disso, Elizabeth não fez drama: apenas propôs que eles se separassem, só para ver se o sentimento era realmente forte. Algum tempo depois, Ernest e Pauline se casam. Esse é o argumento do livro, em que o suposto paraíso em que Hemingway vivia foi transtornado pela presença da petit Pauline.

Tempos depois, o casamento com Pauline também acaba. Ernest larga tudo para presenciar a Guerra Civil espanhola, em 1936, e lá conhece Martha Gellhorn, uma jornalista. Porém, mesmo apaixonado, Hemingway se rende aos encantos de Mary Welsh oito anos depois, na época da libertação de Paris, tomando champagne em um hotel de luxo. Welsh foi sua última esposa e quem testemunhou seu suicídio.

Texto inacabado – Mesmo com sua vida caminhando intensamente após o mote de O Jardim do Éden, Hemingway nunca conseguiu terminá-lo. Durante sua redação, ele parou os trabalhos para iniciar O Velho e o Mar, que lhe renderam o Pulitzer em 1953 e o Nobel no ano seguinte. Seu jardim era uma obra visivelmente importante, porém inacabada, que tinha 200 mil palavras ao chegar nas mãos de Tom Jenks, que o editou e deixou com as 70 mil palavras que conhecemos.

Esse livro foi a mais intensa das batalhas literárias de Hemingway, infelizmente perdida para a psicose. Jenks, seu editor póstumo, jura que nunca reescreveu qualquer trecho. Mas, ainda assim, muitos críticos destroçam o trabalho, alegando que “esse não era o livro que Hemingway anseava concretizar”, principalmente na passagem pela África. De qualquer forma, ainda vale pela quase-reinvenção dele, numa narrativa que, além de tratar de um tema polêmico com um viés autobiográfico, preserva as características textuais que o consagraram.

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