Um homem e sua época

O exemplar que tenho em mãos nem possui essa capa. Há apenas uma divisão horizontal, separando a metade inferior preenchida em preto da metade superior em tom branco. No alto, o nome do falecido jornalista e político Carlos Lacerda (1914-1977), destoando do contraste intencional das duas outras cores. Tudo isso numa edição de 1971 de O Cão Negro (Ed. Nova Fronteira), uma excelente compilação de crônicas desse polêmico brasileiro que veio às minhas mãos por meio da minha sogra.
Logo na primeira crônica, ele quase se justifica. Em A Quem Interessar Possa, ele afirma sobre sua personalidade, que oscilava entre as polêmicas e a sua dor pessoal, algo que diz ser “a maior certeza dessa vida”. Depois dessa introdução, ele relata viagens pelo Vale do Paraíba, considerações sobre peças teatrais e relatos nostálgicos sobre o Rio de Janeiro, compondo assim um interessante retrato de uma época.
Importância – A obra é indispensável para quem quer saber mais sobre Lacerda e seu tempo, pois o jornalista teve uma vida de profundo ativismo político durante o período da Ditadura Militar.
Lacerda foi comunista até 1939, quando rompeu com o movimento por acreditar que a doutrina levaria “a uma ditadura pior do que as outras, porque seria muito mais organizada, e, portanto, muito mais difícil de derrubar”. Depois, dedicou sua excelente oratória e escrita às ideologias direitistas – leia-se Direita, e não a extrema Direita que caracterizou a o Golpe de 1964. Tais atitudes, aliadas aos seus olhos arregalados, nariz pontudo e voz intimidatória reforçam as idéias de quem o considerava uma ‘polêmica ambulante’ – se você viu a minissérie global JK, lembre de José de Abreu interpretando-o.
Beleza – Entretanto, ele mostra grande sensibilidade, algo que poucos relacionam a ele, em O Cão Negro de Winston Churchill. É uma das últimas crônicas do livro. Nesse texto, ele comenta um estudo psicanalítico sobre o político britânico, que relacionava a sua postura pessoal com a firmeza de suas decisões contra o avanço de Hitler e, logicamente, esmiuçava sua personalidade. Segundo o estudioso, Churchill só foi como foi porque não se permitiu ceder à sua depressão, sentimento que ele chamava de ’seu cão negro’. Após confessar sua identificação com o primeiro-ministro britânico e o estudo já citado, Lacerda relata na crônica seguinte, quase como um poema, o dia em que o seu ‘cão negro’ deu o ar da graça. Uma belíssima passagem.
Se você gostou do tema, vá até um sebo ou procure pela internet, pois não vi em nenhuma livraria aqui por perto. É uma ótima leitura, ainda que difícil de encontrar.
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CD-PLAYER: Porcelina Of The Vast Oceans – Smashing Pumpkins














re ruffato 10:59 em Quarta-feira, 28 Fevereiro 2007 Link Permanente |
Dicas de leituras são sempre uma boa, pq devoro livros com uma rapidez insana (o que fica bem caro, no final do mês).
Beijos
e. m. 21:31 em Quarta-feira, 28 Fevereiro 2007 Link Permanente |
não sei o motivo, mas toda vez que leio algo sobre ativistmo político sempre me recordo de george orwell, não que necessariamente haja uma ligação entre os ideais, maaaass, sabe como é né.
quando um livro do lacerda vier às minhas mãos, lerei com maior curiosidade – pq se é review aqui, é pq vale muito a pena.