
Enquanto a Hebe botava o ator André Ramiro, que interpretou o policial Matias no Tropa de Elite, no sofá morno de suas celebridades, a TV Cultura botou o cineasta José Padilha (foto) de cara com advogados, policiais e jornalistas no Roda Viva. Se a pauta já tinha a sua força pela absurda pirataria do longa-metragem, entrevistadores e telespectadores enfim tiveram respostas fortes para perguntas bem construídas se fixassem suas telas no canal 02.
Polícia arcaica – Padilha parecia um daqueles sujeitos atormentados, que vivem remoendo argumentos acerca de seus trabalhos. Muitas vezes iniciava suas palavras de cabeça baixa e olhos no chão, para em seguida encarar seus entrevistadores e metralhar pensamentos sobre o modus operandi arcaico da Polícia. Esse, aliás, foi o mais contundente dos argumentos, que gerou uma transparente surpresa nos olhos do Comandante presente. “A Polícia não está preparada para encarar os novos tempos da criminalidade porque sua estrutura é velha, dos tempos da Ditadura e daquele poderio militar que não se renovou. Com isso, não é de se estranhar que policiais venham mover ações judiciais contra a exibição do meu filme. Se tenta-se calar uma manifestação artística, que por si só enfatiza alguns pontos enquanto desfoca outros de uma mesma problemática, está provado que a Censura está viva e é um método recorrente desses profissionais”, disse. Depois dessa, o apresentador Markun estrategicamente chamou os comerciais.
Sangue na tela – Depois, ao perguntarem sobre a violência do seu trabalho, ele declarou que as reações que se seguiram são naturais – embora ele não tenha visto odes à tortura como relataram na Imprensa. Assim, ele se diz feliz pelo fato de seu filme inspirar discussões sobre a violência urbana. “Mas, apesar de tudo, temos que discutir a tortura, que não é digna sob nenhuma hipótese. Aliás, como podemos combater a violência usando mais violência?”, perguntou, conduzindo o papo para questões biológicas e psicológicas logo em seguida.
Padilha arrematou com uma intensa provocação àqueles que proclamam os soldados do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) como heróis. “No fundo, aqueles que acham que a repressão violenta é a solução da criminalidade estão saindo da toca e revelando aquele velho traço de Direita”, incitou.
Alô, usuários – O arremate das discussões sociais propostas por Padilha e seus roteiristas (cabem aqui parênteses sobre a lição de coletividade, quando ele cita por diversas vezes que o sucesso do longa cabe ao grupo, a força do roteiro e das interpretações dos atores) teve mais uma bofetada na “juventude chapada”. Longe das lições de moral das campanhas anti-drogas, o cineasta disse que seu filme leva cruamente às telas o círculo do tráfico, esclarecendo que não se pode criticar um problema quando se faz parte dele.
Como acabar com isso? “Descriminalizar as drogas seria um bom começo. Afinal, quem disse que a maconha é mais prejudicial do que o cigarro e o álcool? Ou tratamos todas as drogas por igual, ou não mudaremos nada do que já vivenciamos”, sentenciou.
Cinema e Sociedade – Por mais que a mídia já tenha debatido insistentemente essas questões, elas continuam como chaves pois trata-se do próprio diretor sustentando as pautas de seu roteiro. Por sinal, Padilha revela-se um cineasta intenso, consciente da força dos recursos audiovisuais e do potencial explosivo que Elite da Tropa, o livro, teria nas telonas. Mais do que o retrato histórico – e até mesmo poético – das favelas, do tráfico de drogas e das rixas com policiais, José Padilha reacendeu a chama do cinema como transformador social em nossa terrinha.
Será que sua filmografia permanecerá assim? Só o tempo dirá.
